Biblioteca Viva

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

«Dar Voz aos Afetos…»

Na cinzenta e chuvosa manhã do dia 13 de fevereiro, Florbela Espanca, William Shakespeare, Carlos Drummond de Andrade, Eça de Queirós e Fernando Pessoa iluminaram a nossa biblioteca, pela mão e pela voz dos sete mais recentes e corajosos elementos da Trupe Leal Conselheiro, dinamizada, como é sabido, pela alquimista e professora Ana Paula Santos.
À sua espera, encontravam-se os alunos do 9.º A, 9.º B e 9.º C
A expectativa era grande…







 Que bom foi ver e ouvir «A quadrilha», na deliciosa versão das alunas do 9.º C Clara Albino, Érica Pontes, Maria João Silva e Renata Cardoso
 
 


 
Conheces o texto?
 
Quadrilha
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
 Carlos Drummond de Andrade
 

E que dizer da bela leitura encenada de um excerto da obra Romeu e Julieta, de William Shakespeare?
 





O Pedro Marta, aluno do 10.º C da ES D. Duarte,
 
 
 
 
deu-nos a conhecer um outro Eça, lendo este excerto de uma carta do autor à sua futura esposa:
 
Cada Dia que Passa me Aproxima de Si

Bom! Recebo neste instante a sua carta escrita à luz de uma só vela - e tenho de retirar tudo, tudo, tudo o que escrevi! Pois acabou-se! Não retiro. A minha querida dizia no outro dia que devíamos mostrar um ao outro todos os estados de espírito em que tivéssemos estado. Mostro-lhe, assim, que estive hoje, ontem, antes de ontem num estado de impaciência por uma palavra sua, gemendo e queixando-me de «ne voir rien venir». E mostro-lhe assim o desejo de ter todos os dias, ou quase todos, um doce, adorado, apetecido e consolador «petit mot». [...]
  Eça de Queirós,  Carta a Emília de Resende (1885) 
 
E foi mesmo Florbela em pessoa que nos brindou com a sua presença e nos fez felizes…


        [...]  Tu tens-me feito feliz, como eu nunca tivera esperanças de o ser. Se um dia alguém se julgar com direitos a perguntar-te o que fizeste de mim e da minha vida, tu dize-lhe, meu amor, que fizeste de mim uma mulher e da minha vida um sonho bom; podes dizer seja a quem for, a meu pai como a meu irmão, que eu nunca tive ninguém que olhasse para mim como tu olhas, que desde criança me abandonaram moralmente, que fui sempre a isolada que no meio de toda a gente é mais isolada ainda. Podes dizer-lhe que eu tenho o direito de fazer da minha vida o que eu quiser, que até poderia fazer dela o farrapo com que se varrem as ruas, mas que tu fizeste dela alguma coisa de bom, de nobre e de útil, como nunca ninguém tinha pensado fazer. Sinto-me nos teus braços defendida contra toda a gente e já não tenho medo que toda a lama deste mundo me toque sequer.
 
Florbela Espanca,  Correspondência (1920)

 
E vejam só este espantoso Fernando Pessoa…
 
 



e o que ele nos leu:
 
Bebezinho do Nininho-ninho
 
Oh!
 
Venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gostei muito da catinha d’ella. Oh!
E também tive munta pena de não tá ó pé do Bebé pâ le dá jinhos.
Oh! O Nininho é pequinininho!
Hoje o Nininho não vae a Belem porque, como não sabia s’havia carros, combinei tá aqui às seis o’as.
Amanhã, a não sê qu’o Nininho não possa é que sahe d’áqui pelas cinco e meia (1) (isto é a meia das cinco e meia).
Amanhã o Bébé espera pelo Nininho, sim? Em Belém, sim? Sim?

jinhos, jinhos e mais jinhos
Fernando
31/05/1920
 
(1) No original, há aqui o desenho de uma meia.



Terminámos em beleza, pela mão do Pedro Bento, aluno do 10.º C , e do Fernando Santos, aluno do 12.º C, que nos garantiram que só quem nunca escreveu cartas de amor é que é ridículo…
 


 
 

Todas as cartas de amor


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Fernando Pessoa






Os aplausos foram mais do que merecidos!
Muito obrigado e muitos parabéns a todos!