quarta-feira, 29 de abril de 2020

ESTE É O LOBO


Para TODOS (re)pensarmos a solidão e o medo, (re)descobrindo a força feliz dos laços, que tal ouvirmos, numa voz de mel, a leitura de Este é o Lobo, fabulosa história escrita e ilustrada por Alexandre Rampazo?  








quinta-feira, 23 de abril de 2020

«OBRIGADO, LUIS SEPÚLVEDA, PELO PORTO DE HAMBURGO»





Neste Dia Mundial do Livro que hoje, dia 23 de abril, se celebra, não poderíamos deixar de lembrar as admiráveis palavras de um jovem escritor, Afonso Reis Cabral, trineto de Eça de Queirós, na sua justa homenagem a um grande escritor que nos deixou demasiado cedo, publicada, no passado dia 16 de abril, no jornal Público.




Obrigado, Luis Sepúlveda, pelo porto de Hamburgo



O escritor Afonso Reis Cabral foi “diretor por um dia” por ocasião do 30.º aniversário do PÚBLICO, a 5 de Março. Ao saber da morte de Luis Sepúlveda, na manhã desta quinta-feira, ocorreu-lhe de imediato esta “memória”, que aqui publicamos.



«Em 1999, o porto de Hamburgo ficava em Ferreira do Zêzere. Na cama do quarto de cima, na casa de banho, na sala, a um canto do sofá, enquanto os adultos jogavam Bridge: o porto de Hamburgo lavava o Verão com águas que eu, com nove anos, imaginava escuras de crude, atacadas por um mal desconhecido. E era tal a aflição de acudir àquela gaivota ferida, vinda do alto-mar, que eu dava voltas à casa em busca de algo com que a salvar.

A Teresa, prima do meu pai e melhor amiga da minha mãe, dera-me o livro no dia anterior e eu guardei-o como um achado, antes de ler a dedicatória: “Para um menino muito especial que bem podia ensinar gaivotas a voar”. Como verdadeira criança, acreditei nesse encantamento: seria capaz de criar uma gaivota — e, para a Teresa, seria especial. Ainda não sabia que ser criança é ter fé em tais dedicatórias.


Mas Zorbas — o gato grande, preto e gordo — tratava de resgatar o ovo por mim.

Enquanto este não eclodia, os meus pais levavam-me pelas margens do Zêzere em busca de lagostins, cujos rastos de fuga eram uma caça aos gambozinos. A Joana tinha vinte e poucos anos, nadava no Zêzere sem medo dos lagostins, e saía da água com tal beleza, com tais movimentos de coisa bem escrita, que a julgava capaz de dissipar todo o crude do mundo.

Regressado a casa, ansioso, percebi que à beleza se responde com beleza. Chamei a Joana a um canto da sala, anda daí que te quero ao pé de mim, e esperei que ela me olhasse nos olhos para lhe dizer de surpresa, de mansinho e de coração: “Amo-te.” Acho que ela sorriu, talvez tenha afagado o meu cabelo, falta-me a memória de um abraço; seja como for, ela sorriu e foi ter com a Teresa, que me disse: “Por enquanto, quero a minha filha para mim, pode ser?”.

A partir daí, a Joana evitou-me de surpresa, de mansinho e de coração, a ver se eu acalmava, a ver se encontrava beleza noutra pessoa, noutro sítio. A Teresa apontou-me o livro de Sepúlveda, num gesto que dizia “continua a ler”, e eu passei as noites lendo enquanto ouvia as discussões do Bridge e a voz ensonada da Joana.

Quanto mais acompanhava o zelo de Zorbas, mais o identificava com o zelo da Teresa e a discrição da Joana, e quando os gatos votaram para falarem com os seres humanos, entendi quanto custava quebrar um tabu. Incomodado com as tiradas macacas de Matias, temendo que Ditosa quisesse continuar gato em vez de se tornar gaivota, não me achava merecedor da dedicatória da Teresa, e estava visto que não merecera o amor da Joana.


Na última noite de leitura, as discussões dos adultos estavam em ponto de rebuçado e a voz da Joana sonolenta e distante mais e mais. Na página final, a minha barriga caiu em vertigem acompanhando Ditosa, acabada de empurrar da torre por Zorbas. Mas a gaivota evitou o chão e voou sobre o porto de Hamburgo, por fim sabendo ser ave. Adormeci pouco depois, certo de que às quedas se seguem os voos.

Hoje, no meu porto de Hamburgo, Sepúlveda ainda escreve, eu ainda digo à Joana “Amo-te”, e a Teresa ainda é viva.»


in Público, 16/04/2020













quarta-feira, 15 de abril de 2020

«FICAR PERTO DO QUE ESTÁ LONGE»



Nos últimos dias, muitos foram os textos que nos chegaram. E foi verdadeiramente gratificante ver como cada aluno escolheu e leu a sua imagem da exposição «MULHERES QUE LEEM»...

Não poderíamos deixar de destacar o enorme entusiasmo com que uma aluna, que já há muito nos enviara o texto escrito por si, nos fez chegar o belo texto que incentivou uma familiar sua a escrever:


George Dunlop Leslie, Alice in Wonderland, 1879

Menina que ouve ler…

Menina que escuta a leitura dos pais aprende a sonhar, desenvolve a criatividade, cresce com conhecimento, cria objetivos, luta pelos seus ideais. Sonha, vive, é feliz.

A leitura é uma porta aberta para o Mundo, é cultura, é ficar perto do que está longe.

Menina que escuta a leitura dos pais vai tornar-se uma mulher culta, independente, autónoma, perspicaz, livre… Vai ler para os seus filhos, ensiná-los a construir o caminho da felicidade.

Marta Rosas




E aqui fica a oportunidade de todos lermos os bonitos textos que tantos alunos decidiram escrever:


Claude Monet, 1872
Sou o que sou, sou o que quero ser e não deixarei que nada me faça sofrer. 
Sou uma guerreira sem espada.
Quero sentir o vento, quero ouvir o doce canto dos pássaros para que árvores e flores tenham movimentos dançantes. A natureza tem tesouros onde me inspiro para escrever e mais tarde ler e perceber que tudo à minha volta é belo. 

Menina, só é preciso levantar a cabeça e sorrir… para compreender a arte da vida. 

Juliana V.




Hulton-Deutsch Collection
O seu mundo 

Vou contar-vos uma história que me aconteceu...

Eu era bibliotecária e, num dia escuro e chuvoso, vejo entrar uma menina bonita toda molhada e descalça. Logo a embrulhei num casaco. Ele perguntou-me se podia ler um livro de fantasia, eu dei-lhe vários. Ela devorou-os. 

Quando finalmente terminou a sua viagem, deitou-se no chão e dali não saiu, até ser dia. 

Tentei acordá-la, mas foi em vão. Parecia que tinha ficado no seu mundo maravilhoso.


Teresa M.



João Fazenda

Havia uma menina que adorava ler; era a sua atividade preferida. Ela via na leitura poderes incríveis, criando asas e conseguindo voar para qualquer lugar neste mundo e noutros mais distantes.

Fazia dois meses que não saía de casa, pois uma doença contagiosa tinha atingido o seu país. Mas, no seu quarto, viajava sem qualquer receio e imaginava voltar à normalidade.
Assim, esta menina podia ser feliz, sonhar e tentar viver o melhor possível esta desagradável situação.


Francisco C.




Jillian Tamaki

O dia despontara cinzento, chovia imenso… Na rua, a mulher de casaco rosa continuava concentrada a ler o seu livro!

Desligada de tudo, mergulhara naquela história, e assim caminhava, lendo, com todas as suas forças, cada peripécia, enquanto por cima do seu lindo chapéu vermelho a chuva caía com abundância.

Podem até chamá-la de louca, sim… Porém, não sabem que assim ela escrevia a sua própria história…
Nem uma tremenda tempestade a faria desistir!
Ler para vencer! 

Rodrigo P.




Silja Gotz




Havia uma menina, inocente, jovem, de olhos muito azuis, que ainda não sabia ler. Vivia com a avó, que não era muito idosa e tinha ainda cabelos negros. Todos os dias ia à biblioteca na sua bicicleta e adotava um livro para ler à neta.


O tempo passou e a menina foi para a escola, onde aprendeu a ler. No entanto, embora já soubesse ler muito bem, curiosamente, sempre pedia à avó para lhe ler uma história.


Dinis G.







Hulton-Deutsch Collection

Amores de Sofia

Sofia, uma adolescente amante de livros, resolvera abrir um clube de leitura na sua escola.

Rapidamente pôs mãos à obra. Passou várias horas na sua biblioteca preferida, a ler e a escolher cuidadosamente os exemplares mais adequados para propor no seu clube. Sempre tivera uma predileção por livros históricos, livros que explicam “como” e “porquê”.


O clube atualmente é um sucesso e Sofia sente-se realizada, mas, sempre que possível, mergulha nos livros da biblioteca.


Marta Sofia R.




George Dunlop Leslie

Numa tarde, estava eu cozinhando com minha filha, quando ela me disse que queria ler uma história com personagens que representassem mulheres fortes. 

Parei tudo o que estava fazendo e procurei um livro intrigante. Uma personagem chamada Dulce dizia: “liberdade é o sentimento de saber voar...”. Minha filha então virou-se com uma expressão alegre, queria ser como Dulce! 
A partir daquele momento percebi o quanto os livros podem ser uma fonte de inspiração para outras pessoas. 

Gabriela S.



João Fazenda

Maria era uma menina tristonha, solitária, que ainda mal sabia ler! O seu refúgio era o sótão! 
Aí abundavam os livros, também eles abandonados! 
Subitamente, eles despertaram a sua curiosidade…
Então ela começou a ler com dificuldade, mas também com muita determinação!


Muitos anos passaram! Maria já se tinha tornado uma mulher de sucesso, pois já tinha filhos e um emprego que ela adorava, porque agora conseguia estar todos os dias perto da sua paixão, os livros!
Fernanda S.




George Dunlop Leslie

Palavras adormecidas

Jubilea era uma menina que vivia na Polónia, frequentava a quarta classe e era hiperativa. Tal como as outras crianças, Jubilea  tinha atividades extracurriculares, mas tinha mais dificuldade em realizá-las, por ser hiperativa.

A única forma de Jubilea se acalmar era ouvir uma história contada por sua mãe, pois nas palavras encontrava paz.

Todos os dias, a sua mãe sentava-se no sofá para lhe ler uma história e, no final, ela adormecia nos seus braços. 


Miguel V.




E terminamos exatamente como, há muitos dias, começámos esta aventura: com a apresentação de um delicioso e promissor texto de uma aluna do 5.º ano:

George Dunlop Leslie

Como prenda de Natal, recebi um livro e uma boneca! Fiquei tão feliz!

Nos dias seguintes, mal acordava, começava a tentar ler.

A minha mãe, mulher maravilhosa, observava o meu entusiasmo e então contava-me a história. Todos os dias, um bocadinho! E eu adorava aqueles momentos!

Aconchegadinha ao seu peito, ouvia-a com muita atenção e, quando dava por mim, já estava a sonhar, a viajar nas minhas fantasias e a bonequinha à espera de brincar… Tão bom!

Maria Inês R.



MUITO OBRIGADA E MUITOS PARABÉNS 

A TODOS OS PARTICIPANTES NO NOSSO 

DESAFIO DE ESCRITA CRIATIVA!!!





segunda-feira, 13 de abril de 2020

HÁ DIAS ASSIM...


Nestes penosos dias de medo e cansaço, há quem resista e seja bem a prova de que cada ser humano tem em si, como recentemente escreveu José Tolentino Mendonça, um “mapa que cruza o pó da terra com o pó das estrelas”…

Ontem, dia de Páscoa, chegaram-nos dois textos verdadeiramente extraordinários: o de uma atual aluna da escola e o de uma Encarregada de Educação de dois antigos alunos, incansável colaboradora e amiga da nossa Biblioteca.

Muito, muito obrigada!



George Dunlop Leslie

 “O conhecimento vem dos livros”, é o que dizem as mães, mulheres desde pequeninas, curiosas desde o ventre. Ler sempre originou essa curiosidade, e elas ouviam a sua matriarca dizer palavras sábias e nítidas, perguntando-se de onde vinham.
A pequena filha, que criança já não queria ser, perguntou sobre livros, à sua mãe.
A mãe, professora lisonjeada, sorriu-lhe e disse, pegando no seu livro favorito:
- Pequena mulher, tu que descobres o mundo, vem descobri-lo, pela minha voz.
Leonor N.




João Fazenda

O Mundo existe e vive lá fora realidades diferentes, distantes e dissociadas dos meus mundos, aqueles que vivo em cada livro que leio e devoro.
Vivências só minhas. 
São os meus mundos.
Refugio-me em cada um deles. São as suas cores, magias e emoções, vivas ou cinzentas, que me fazem ser mulher livremente.
Ler é isso. Transporta-nos para outros mundos e faz as pontes para o nosso "EU", no mundo real, que começa quando fechamos o livro.

Isabel Guilherme





sábado, 11 de abril de 2020

UMA BENIGNA CADEIA DE CONTÁGIO...



Um grupo de amigos, antigos alunos da Escola Inês de Castro, relembrando a feliz aventura que foi, há dois anos, participar no 1.º Desafio de Escrita Criativa lançado pela Biblioteca, estabeleceu uma “benigna cadeia de contágio” e, generosamente, decidiu, também este ano, lançar mãos à obra.

Com um comovido agradecimento, aqui fica o magnífico contributo dos seus textos.




Jillian Tamaki
Onde há livro, há cor

Estava um dia chuvoso, era uma primavera esquisita. Tudo fechara há várias semanas. 

Uma mulher, desesperada por estar em casa há tanto tempo, decidiu pegar no seu chapéu e livro e foi ler para a rua, foi-se refugiar da própria casa. 

De repente, uma súbita mancha de cor chamou a atenção, captando o bairro inteiro e, num dia cinzento, todos tornaram a rua cheia de cor, com os seus chapéus e livros.


Íris G.





Jillian Tamaki



Sim, estou a ler no meio da rua cinzenta, imunda. Talvez porque este seja o meu escape, enquanto menina ou mulher, ainda não percebi. 



Ler é algo que me esvazia a mente, mas em contrapartida alimenta o espírito. Não interessa o que os outros dizem. Deixa-os falar. Vivi demasiado tempo na escuridão. Agora renasço das cinzas. 



Farei o possível para descobrir o que fui, sou e serei, ao vislumbrar no papel gasto os desejos íntimos de outrem. 

Mariana C.



Silja Götz
Havia uma mulher, forte, de lindos cabelos brancos que a idade lhe trouxera. Margarida, sua neta, que herdara do avô os olhos azulados, pediu-lhe um dia:

  - Avó, podes ler aquela história?



A pobre senhora, triste, explicou-lhe que não conseguia, era analfabeta.

  - Eu ensino-te! – exclamou Margarida.

Estava decidido. 

E a partir daí, assim que saía da escola, pegava na bicicleta e ia, de livro na cesta, ensinar a avó, para que finalmente pudesse ouvir dela a esperada história.

Inês A.




Jean-Honoré Fragonard

Durante anos, a mulher viu no conforto das páginas dos livros uma forma misteriosa e revolucionária de se conectar com o resto do mundo. 

Quando não lhe era permitido falar e participar nas decisões políticas, a mulher emancipou-se muito devido àquilo que escrevia e lia. Ler deu um enorme empurrão a Meta von Salis, Sojouner Truth, Jane Austen, Susan B. Anthony, Elizabeth Clark, entre outras.


A leitura proclamou muitos direitos que hoje as mulheres veem como adquiridos.

Matilde C.




Hulton-Deutsch Collection
Finalmente consegui entrar na biblioteca do meu pai, aquela que esconde milhares de aventuras. Mas senti-me só, rodeada de estantes, livros, páginas e palavras. 
Aquela gruta impunha respeito, chegava mesmo a ser assustadora... 

Eu estava imóvel, extática, como mergulhada num sonho, no meio de livros, fábulas, epopeias…

Descobria aquele que tornou tudo realidade: simples mas complexo. 

Já não estava numa caverna, agora era tudo claro e percetível e eu sabia que já não era uma menina só.

Pedro M.




Jillian Tamaki

Estava só, na escuridão, no meio da tempestade… Onde estava toda a gente? 

O mundo que um dia conheci estava a desmoronar-se e eu ali, impotente, a olhar. Ao longe avisto uma mulher, muito serena, com um pequeno livro.

Disse-me em tom reconfortante que estava à espera do nascer do sol… do começo de um novo dia! Prometeu-me que as pessoas sairiam à rua, tal como da última vez, e que tudo isto não passaria de um sonho...

Ana Margarida P.




terça-feira, 7 de abril de 2020

OS TEXTOS CONTINUAM A NASCER...


Jessie Willcox Smith

Alguém tem dúvidas de que esta foi a imagem que a Inês P. escolheu e deu origem ao seu belo texto?

O Encontro 


Numa manhã fria de inverno, fui sentar-me à janela. Os meus amigos estavam lá fora a brincar. 
De repente, algo chamou a minha atenção. Estava rodeada de livros! Prendi os meus olhos neles e nunca mais os retirei. 
Abri-os, um por um. Não sabia ler, mas as imagens falavam por si. Eram tão belas… que as ficaria a admirar horas a fio. Viajava imaginando o mundo. 

Desde menina que os livros são parte de mim. 



E que bom que é quando os Encarregados de Educação, generosa e inspiradamente, participam também nos nossos Desafios...
Muito, muito obrigada!


Hulton-Deutsch Collection
Memórias de Infância 

Terça-feira, 11 de janeiro de 1977. 
A Irmã Luzia anunciou a visita. 
A partir de então, aquele lugar não lhe saía do pensamento. 
Naquele tempo, os livros eram escassos. Os poucos a que tinha acesso chegavam-lhe via biblioteca-móvel. A alegria de, um dia, perder-se no meio deles era maior do que o seu tamanho. 
E ali estava ela! Mal podia imaginar que, nesse dia, iria ler o livro que a mudaria para sempre. 

Essa menina era eu! 

Celeste Silva





Anna Melcon Bond

A Ânia M. foi beber a sua inspiração a esta imagem e aqui fica o belo e corajoso texto que escreveu:


Mulher …
Palavra guerreira
Não desiste à primeira!

Leitura …
Palavra contagiante
Que conquista todos
Com diferentes interpretações.


Há séculos atrás…
Se a mulher soubesse ler
Era uma bruxa,
E uma morte dolorosa
A esperaria…  

Esta união
Não foi fácil!
Algumas batalhas foram perdidas
Mas no final
 a luta foi ganha!

Hoje em dia, ambas
se associam sem
qualquer
repressão ou punição!

Ler é um direito humano!
Eis a razão pela qual
a todos
deve ser transversal!


A mesma imagem inspirou a Bruna V. que escreveu este bonito texto:


A leitura…  
Não é um simples passatempo
É um mundo enorme onde crescemos 
E aprendemos

A mulher…
Ser forte e sensato
Sábio e discreto

Os animais…
Bons ouvintes 
Em quem podemos confiar
Nunca nos irão criticar

O ambiente…
Cada um tem as suas preferências 
No conforto da sua casa
Ou então na natureza

A mensagem…
Cada um tem a sua forma de entender 
Seja tentado perceber o que se diz nas entrelinhas
Ou voltar atrás e reler!



domingo, 5 de abril de 2020

A COMPANHIA DE UM TEXTO...

E não é que estas sugestivas imagens da exposição «Mulheres que Leem» estão somente à espera da companhia de um texto de 77 palavras?


Alberto Pisa
Jean-Honoré Fragonard, A Leitora, 1776

Claude Monet, 1872

João Fazenda


Maurice Dennis, The Muses in the Sacred Wood, 1893






sábado, 4 de abril de 2020

E DAS IMAGENS NASCERAM (AINDA MAIS) TEXTOS...

Hulton-Deutsch Collection / Corbis,
Uma rapariga mergulhada num livro a um canto da livraria Foyles, 1949


No conjunto da exposição «Mulheres que Leem», foi esta a imagem que três alunos consideraram mais inspiradora...

Vejamos o maravilhoso texto da Cíntia M. que dela nasceu:


Perdida à procura de conhecimento,
fui engolida pela onda da leitura
e encaminhada 
até à ilha da poesia, da prosa, da aventura.

Onde os livros são as estrelas que me iluminam
e a poesia dá luz aos meus dias.

Na floresta tropical das letras,
viajo pelos contos, pela imaginação,
nesta viagem ao infinito em que me encontro,
tomo rumo à imensidão da sabedoria.

Na onda em que regresso à realidade,
entrego-me às águas como uma mulher apaixonada.




E que dizer do delicioso texto do Rodolfo C.?


«Luísa vivia próximo de Lisboa. Como habitualmente, desfrutava do passeio até à biblioteca onde, com a sua mãe, passava boa parte do seu tempo lendo muitas histórias.
Quando aí chegava, a menina refugiava-se num canto e ficava só, apenas com a aura dos livros que escolhia. No seu nicho preferido, permanecia entre as obras literárias empilhadas e, descobrindo a insaciável magia, debruçava-se folheando as páginas uma a uma.
Sonhava ser escritora, mas tinha ainda muito que ler.»



A mesma imagem inspirou a Inês M. que escreveu este belo texto:


A menina e os livros

Num belo dia de primavera, Margarida estava sentada no seu jardim, quando leu no jornal que ia abrir uma nova livraria na cidade. Como gostava muito de ler, não perdeu tempo e foi visitar a nova livraria. 
Ficou espantada ao ver a imensa quantidade de livros que eram magníficos e tinham capas belíssimas, tão belas que davam vontade de os ler. 
Margarida gostou tanto dos livros que decidiu levar os seus preferidos.






Silja Göltz

E esta foi a imagem que inspirou a Beatriz C., que decidiu brindar-nos com este grande texto, cheio de verdade:


«Fiz uma amiga. 
Ela parecia ser uma menina introvertida, até eu a conhecer. Amy é o nome dela. Adora ler e nunca a vi sem um livro nas mãos. Para além de ler, adora andar de bicicleta, diz ela que se sente livre quando o faz. 
Amy não é bonita, mas o que ela sabe ultrapassou tudo o que poderia imaginar. 

Todos a julgam como se julga um livro, pela capa, e esse é o grande erro.»



E o mesmo podemos dizer do belo texto da autoria da Rita C.:


«Escrever não é só desenhar palavras, ler não é apenas observar frases que foram escritas, mas sim a partir delas sonhar e imaginar.
Com a escrita tudo é possível. Mesmo tudo? Sim, é verdade. 
A sério? Então através da leitura e da escrita posso imaginar tudo o que quiser? É verdade, até uma menina pequenina como tu se pode imaginar numa bicicleta invisível, através das pequenas palavras de um livro.

Tudo depende de como olhas as palavras.»




Já o João A. foi beber a sua inspiração a esta encantadora imagem:

Anna Melcon Bond

E igualmente encantador é o texto que dela nasceu:

«Nesta imagem, posso ver uma menina sentada na barriga de um urso, a ler um livro. Do lado de fora consigo ver um cão a latir, dois guardas, um helicóptero a voar por cima das árvores, um livro caído no chão e uma bicicleta.
Na minha opinião, a barriga do urso representa um esconderijo e a menina refugiou-se no seu livro. Tenta, assim, fugir à realidade barulhenta que está à sua volta, representada pelos outros elementos do desenho.»



E DAS IMAGENS NASCERAM (MAIS) TEXTOS...

Jillian Tamaki


Curiosamente, esta foi a imagem que, até ao momento, recebeu a preferência de um maior número de alunos. E que fantásticos e tão diferentes textos dela nasceram...



Vejamos o inquietante texto da Eduarda A.:


«Estava sempre ali, parada, a ler um livro. Achavam-na estranha. Ouvia as pessoas a sussurrar quando passavam, mas já era habitual.
Num dia chuvoso, em que a mulher estava a ler o seu livro, apareceu um homem e perguntou-lhe porque não ia para casa, como as mulheres deviam fazer. Ela mostrou-lhe o livro, tinha várias histórias escritas por mulheres que contavam como tentaram parar a desigualdade de género. 
Sem uma palavra, o homem seguiu o seu caminho.»



E o conciso e precioso texto escrito pelo Leandro M.:


«Era um dia escuro e tempestuoso. Peguei no guarda-chuva, no casaco e saí para comprar um livro novo.
As ruas estavam desoladas, vendo-se apenas alguns carros. O vento era gelado e forte, arrastando consigo os pingos de chuva que doíam como balas.
Cheguei à livraria de rastos. Pedi à mulher do balcão o livro, paguei-o e fui-me embora.
Comecei a lê-lo e, magicamente, a tempestade foi acalmando.

Depois desse dia, os livros sempre acalmaram as minhas tempestades.»



E o maravilhoso texto do João M.:

«Faz hoje um ano que partiste e me abandonaste. 
Contigo tornei-me uma mulher independente e imponente. Havia algo de especial em ti, uma certa doçura, uma certa sabedoria inexplicável que sempre me fascinou. Acabo agora de vir do cemitério e deixei-te aqueles belos lírios que plantámos juntos. Está a chover como nunca tinha visto e pensei em ir para casa. Mas fiquei, fiquei aqui, em pé, a ler um dos livros de Pessoa, o teu favorito.»



E ainda o belo texto da Eva A.:


Nesta imensidão de livros,
a nossa cabeça mergulha nas palavras
da maior à mais pequena
da quase insignificante 
à sublime e arrebatadora.

Na mais profunda escuridão
há uma luz
que se derrama sobre uma mulher.

No meio do preto e branco
cheia de luz
lá está ela a destacar-se.

As pessoas que por ali passam
sentem um brilho
uma coisa especial.

É como se houvesse cor
é como se existisse uma vida 
que desde sempre se procura.


sexta-feira, 3 de abril de 2020

E DAS IMAGENS NASCERAM TEXTOS...

Toni Demuro

Irreal, o rosto do nosso mundo apresenta hoje contornos que nenhum de nós reconhece...
Mais do que nunca, nestes inimagináveis e tão difíceis tempos de distanciamento obrigatório, é fundamental que nos sintamos ligados pelas palavras que lemos e escrevemos, pelas emoções que experimentamos e com os outros procuramos partilhar.
Aqui ficam, pois, alguns dos belíssimos textos que, ao longo dos últimos dias, nos têm chegado, no âmbito do Desafio de Escrita Criativa que lançámos.


A Carolina R., aluna do 5.º ano, logo que entrou na Biblioteca e, cheia de curiosidade, atentamente observou a exposição «Mulheres que Leem», escolheu a imagem que mais lhe agradava e começou a escrever o seu texto de 77 palavras.
Foi a primeira aluna a participar no nosso Desafio!

Eis a sua imagem favorita:
Alexander Deineka, Woman Reading, 1934
E aqui fica o seu belo texto:


A mulher que lia

Havia uma mulher que estava a tomar café, quando subitamente se lembrou de  algo muito importante. Ela precisava do seu livro, pois não conseguia sobreviver sem ele.
Num salto, pegou na sua aventura e começou a ler. No seu livro havia um tema: poemas de amor.
E começou a escolher:
«De perto conheço o amor,
De longe conheço a bondade
 Hoje conheço-te
E amanhã digo-te a verdade.»

Era isto que a mulher lia!


Após uma observação atenta da exposição «Mulheres que Leem», o Guilherme F. decidiu que o seu texto nasceria da seguinte imagem:


Will Barnet, Woman Reading, 1970

Vejamos o fantástico resultado:

«Ah, ainda me lembro dos dias em que íamos os dois ao jardim passear durante a tarde. Ela gostava de ficar em frente ao lago a ver os patos nadar, e eu de me esticar. 
Mas aquela mulher, depois, arranjou uma coisa feita de folhas e de couro a que chamam livro e... esqueceu-se. 
Todas as noites se deitava a "ler", segundo dizem, e esqueceu-me de vez, um gato que nunca fugiu e a consolou quando precisava.»



Determinadíssimo, por sua vez, o David C. escolheu esta imagem:

René Magritte, La Lectrice Soumise, 1928

Eis o seu surpreendente e tão oportuno texto:


«Lá estava ela, à porta do seu trabalho. Acabara mais cedo os seus afazeres, por isso ocupara o seu tempo a ler um livro. 
Estava a ler um livro de história. Não era uma história qualquer, era uma história de terror. 0 conto tratava de um acontecimento histórico que acontecera há muito tempo: uma pandemia por coronavírus. 
A mulher interessava-se por acontecimentos antigos. Mas quando descobriu a origem da doença, percebeu que o ser humano é terrível.»




Os alunos André C. e Matilde R. interessaram-se pela mesma imagem:

Roman Zaslonof, Endormie


Vejamos o inspirado texto do André C.:

«Minha amada, porquê quebrar o tabu, nesta terra abominável e insensível? 
Leste o livro proibido e acabaste num sono profundo...
A mulher por quem me apaixonei, sempre meiga, corajosa, para o povo salvar, leu o proibido e acabou por não acordar. 
Minha flor, o teu sorriso, o fogo do teu olhar nunca mais me conseguirão sossegar, nem o teu cheiro a tulipa, teu  cabelo cor das madeiras mais claras de um lugar onde só tu podes estar.»


E o não menos belo texto da Matilde R.:


«Julguei-te, mal te vi, sem compaixão. Parecias um simples mortal… 
Nem me dei conta da tua alma presente na minha. Só percebi quando acordei nos teus olhos a sinceridade e paixão que sentias por mim. Era ainda muito inocente para declarar que estava apaixonada por um ser que, antes, me parecia desprezável… Mas eu amava-te!
Foi quando acordei e me apercebi de que tudo não passara de um simples sonho. Um sonho com uma mulher a ler...»



A Lara O. e o Santiago G. inspiraram-se nesta bela e sugestiva imagem:


Toni Demuro


E dela nasceu o magnífico texto da Lara O.:


«Vejo uma simples árvore elevar-se do chão, repleta de saber. Toda ela feita de uma intensa paixão obscura. 
Olho profundamente o negro da imagem e entendo que, na vida, se não tivermos a oportunidade de realizar grandes coisas, podemos realizar pequenas coisas de forma grandiosa. 
Assim como esta simples mulher que, no meio da solidão do seu livro e da sua alma que lê, dá vida ao jovem rebento que da seiva da árvore do saber nasceu.»



E o inspirador texto do Santiago G.:


«Era uma vez uma mulher.
Ela lia muitas vezes com a filha. Para lerem sossegadamente, subiam a uma árvore do parque.
Um dia, decidiram interditar o parque às mulheres (antigamente, havia uma enorme desigualdade de género...). Ainda assim, elas entraram. Foram encontradas e cruelmente castigadas, sendo separadas mãe e filha. Essa menina, passados vinte anos, revoltou-se, e é por causa dela que hoje as mulheres são quase iguais aos homens. 

A desigualdade de género tem de acabar.»


A preferência do Gabriel C. foi para uma imagem bem diferente:

Jessie Willcox Smith,A Child's Garden of Verses, 1905

Da qual nasceu este texto tão especial:


«A casa estava caótica, o pai e a mãe não paravam de discutir e a filha, coitada, assistia, cheia de medo.
Quando as discussões finalmente acabaram, a menina continuava aterrorizada, não sabendo o que fazer para se esquecer. Procurou uma distração, mas só encontrou um livro. Não queria ler, pois detestava fazer isso, mas, como não havia mais nada, leu o livro. 
Adorou e, numa questão de segundos, esquecera-se do acontecimento. E assim voltou a ficar feliz.»


Já a Cíntia M. foi beber a sua fantástica inspiração a esta imagem:

Hulton-Deutsch Collection,
Uma rapariga mergulhada num livro a um canto da livraria Foyles

E o resultado foi este maravilhoso texto:


Perdida à procura de conhecimento,
fui engolida pela onda da leitura,
e encaminhada 
até à ilha da poesia, da prosa, da aventura.

Onde os livros são as estrelas que me iluminam
e a poesia dá luz aos meus dias.

Na floresta tropical das letras,
viajo pelos contos, pela imaginação,
nesta viagem ao infinito em que me encontro,
tomo rumo à imensidão da sabedoria.

Na onda em que regresso à realidade,
entrego-me às águas como uma mulher apaixonada.